Panorama da inovação em Portugal e papel dos stakeholders

 

Inovação: o que é a curva de difusão da inovação e estratégias para ajudar as empresas

Everett Rogers desenvolveu um conceito chamado a “Curva de adoção” (ou difusão da inovação), que explica o porquê de algumas pessoas adquirirem novos produtos/serviços ou adotam comportamentos antes dos outros.

Analisar novos produtos ou marcas no mercado é crucial para as empresas poderem desenvolver estratégias eficazes e maximizar o potencial de sucesso e aceitação, sem desperdiçar recursos desnecessários.

Desta forma, existem cinco perfis de consumidor:

  • Os inovadores, que são os primeiros a adotar e aderir às novidades. Gostam de assumir riscos e de ter o que os outros ainda não têm.
  • Os pioneiros, que vêm a seguir aos inovadores, que são quem forma a opinião geral sobre estes novos produtos/serviços e fazem com que estes cheguem aos demais consumidores.

O abismo é o que divide a adoção entre apenas um grupo restrito de pessoas menos adversas ao risco e a maioria dos consumidores adotar uma inovação.

Nestas fases, as inovações são geralmente mais viradas para características técnicas e do produto, através da criação de novos produtos ou de melhorias significativas em produtos já existentes. Estes consumidores vão validar o negócio/produto/serviço, identificar pontos fortes e pontos de melhoria, essencial para ajustar estratégias e criar uma melhor adaptação ao mercado.

  • No que diz respeito à maioria inicial que corresponde a cerca de 35%, este perfil só adota as inovações após observar as experiências dos dois perfis anteriores e decide se os benefícios são adequados a si, de forma a adquirir o produto.

A aposta no marketing é essencial para manter a competitividade da empresa e deve ser usada como ponto diferenciador, através de uma comunicação clara dos benefícios que permita criar confiança na marca/produto.

  • A maioria tardia, por sua vez, tem muito mais aversão ao risco e só adquire produtos/serviços testados no mercado, com benefícios claros e comprovados.
  • Já os retardatários, não têm muito interesse em novos produtos nem de acompanhar as novidades.

Panorama atual da inovação em Portugal: importância das start-ups e papel das incubadoras

Segundo o Índice Global de Inovação 2023, Portugal encontra-se no 30º lugar no ranking que avalia 132 países, onde no top 3 encontram-se a Suíça, a Suécia e os Estados Unidos da América.

Este ranking avalia a capacidade de inovação de um país, incluindo fatores como a qualidade das instituições políticas e de negócios, a sofisticação do mercado e dos negócios, a produção de conhecimento e tecnologia, entre outros.

Portugal destaca-se em setores como a tecnologia da informação, energias renováveis e turismo (contando com dois clusters de ciências e tecnologia, em Lisboa e no Porto, não incluídos no top 100 do ranking).

Importante destacar que, o número e taxa de crescimento das start-ups são geralmente um ótimo indicador de como é o ambiente empresarial, bem como a favorabilidade para empreendedores, a atração de investimento estrangeiro e as condições para cativar nómadas digitais.

Apesar das grandes melhorias de Portugal nos últimos 10 anos ao possuir várias empresas tecnológicas e inovadoras, tais como os unicórnios OutSystems, Talk Desk e Feedzai, ainda existe um grande caminho a percorrer no incentivo à criação de novas start-ups. De facto, o governo português tem direcionado recursos, de forma a criar concursos e apoiar iniciativas locais de empreendedorismo, seja através de programas públicos de financiamento ou da aposta em infraestruturas de apoio local. Exemplo disso são as incubadoras de start-ups, tal como a Unicorn Factory Lisboa, DNA Cascais, Startup Lisboa ou ScaleUp Porto.

Portugal tem as condições para se tornar um dos hubs mais importantes na Europa no que diz respeito a uma forte economia de start-ups, dado o fácil acesso ao mercado europeu, incluindo a zona Schengen, o que se traduz numa maior facilidade de trocas comerciais.

De acordo com a StartupBlink, Portugal desceu três posições no ranking mundial de ecossistemas de start-ups em 2024, e encontra-se atualmente na posição 29ª, verificando-se, também, um declínio em relação ao ano anterior (26º). Atualmente, Portugal possui 6 cidades no top 1000, nomeadamente Lisboa (86º), Porto (167º), Braga (495º), Coimbra (545º), Leiria (606º) e, por fim, Aveiro (806º).

São vários os setores que se destacam em Portugal por terem soluções inovadoras, tais como o setor das Tecnologias de Informação e Software, na Saúde, Energia, Banca e Finanças ou ainda no Turismo.  De forma geral, são as start-ups que mais comunicam as suas inovações e divulgam os seus produtos/serviços inovadores.

Importância da Educação e Centros de investigação para um ecossistema nacional mais inovador

A criação de conhecimento é fundamental para o desenvolvimento de produtos e processos inovadores, no entanto, é essencial também apostar na formação de talentos e criar condições para a formação de profissionais qualificados.

As universidades e centros de investigação, assim como as empresas privadas que apostam em I&D, têm um papel muito importante, em primeiro lugar, na formação, em segundo, na criação de oportunidades e, por fim, na retenção do talento qualificado, que pode gerar muito valor e competitividade para o mercado nacional.

Incentivos governamentais: programas de fundos europeus

São variados os programas de subsídios, incentivos fiscais e linhas de crédito específicos para a inovação em Portugal. Como exemplo, apresentamos programas como o Compete2030 ou PT2030, programas regionais direcionados para os mais diversos tipos de inovação ou vouchers para start-ups. As empresas podem candidatar-se diretamente ou através de consultoras especializadas em inovação ou em fundos europeus.

Inclusive, existe a Agência Nacional de Inovação (ANI) cuja visão estratégica passa por ser a ligação entre o meio científico e as empresas. Esta tem como objetivos estimular a inovação em Portugal (criação da Estratégia Nacional de Inovação), integrar redes internacionais de inovação e promover parcerias, e ainda financiar projetos de I&D.

Eventos de inovação em Portugal

É impossível não considerar o mais relevante e importante evento de inovação e tecnologia em Portugal, nomeadamente, a Web Summit. Desde 2016 que este evento se realiza em Lisboa e que reúne start-ups, investidores e líderes da indústria num único lugar.

Ademais, a própria ANI promove durante o ano variados workshops, conferências e sessões de informação com temas tais como financiamento de I&D, transferência de tecnologia e programas europeus de inovação. Além destes, existem também outros eventos mais especializados dentro de cada setor de atividade, exemplo do Portugal Smart Cities Summit, em Lisboa, dedicado a especialistas em urbanismo, sustentabilidade e tecnologia, com enfoque no desenvolvimento de soluções inovadoras para cidades inteligentes.

Tendências e Oportunidades

Cada vez mais surgem novos setores e novas tecnologias, tais como a biotecnologia, o meta verso, a blockchain ou ainda a tecnologia espacial (que pode ter diversas aplicações, tal como transporte, logística, segurança e saúde).

Verifica-se um aumento da necessidade de produtos manufaturados, no entanto, existe falta de mão de obra e matérias-primas, provocado pelas instabilidades geopolíticas dos últimos anos. É necessário apostar numa reinvenção do setor secundário.

A indústria é um ponto importante na inovação dos processos organizacionais, com potencial para contribuir para a diminuição de custos, redução da pegada ecológica e ainda, reforçar a inovação de produto e processos.

A aposta na inovação tecnológica e na digitalização já é visível tanto no setor terciário (desde a saúde a serviços financeiros), como no setor secundário (indústria 4.0 e 5.0), com a utilização da inteligência artificial, automação e robótica. Cada vez mais, num mundo global e conectado em rede, é necessário pensar na cibe segurança, ao proteger sistemas, redes e dados contra os mais diversos ataques digitais.

Destaca-se o foco numa inovação mais sustentável, com foco na digitalização, no investimento em inovação e desenvolvimento (I&D) e ainda, na colaboração entre o setor público e privado, por exemplo, com o estabelecimento de parcerias e protocolos entre empresas e universidades.

A cooperação público-privada promove a transferência do conhecimento e possibilita a criação de inovações com um impacto positivo na sociedade (seja a nível ambiental, social ou de qualidade de vida). Exemplo disto, é a Bosch, que em conjunto com a Universidade do Porto, está a desenvolver um projeto que pretende utilizar algoritmos avançados para veículos autónomos (projeto THEIA).

Realçar que, ainda há desafios que devem ser ultrapassados no mercado português, nomeadamente, no que diz respeito à atração e retenção de profissionais qualificados, com remunerações adequadas; às barreiras estruturais, relativamente ao alto nível de burocracia; e ainda, a necessidade de mais parcerias a nível internacional, de forma a facilitar o acesso a esses mercados e aumentar a competitividade.

O mercado português deve não só adaptar-se, mas estar à frente da investigação e desenvolvimento, de forma a ser pioneiro e ser cada vez mais competitivo não só no mercado europeu, como também no mercado mundial. Um crescimento económico sustentável nacional só é possível ao apostar na inovação e desenvolvimento, onde as estratégias de Blue Ocean devem prevalecer.

 

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