A Câmara de Alenquer dá o exemplo na Felicidade Organizacional: Entrevista ao Presidente João Nicolau

Num tempo em que a competitividade das organizações já não se mede apenas por resultados financeiros, mas também pela capacidade de cuidar das pessoas, a felicidade no trabalho assume um papel cada vez mais central nas estratégias de liderança e gestão. Também no setor público, começa a ganhar força uma nova visão: instituições mais humanas, mais próximas e mais conscientes de que colaboradores motivados são essenciais para prestar um melhor serviço à comunidade.

É neste contexto que a Câmara Municipal de Alenquer se destaca ao conquistar a certificação no Índice de Bem-Estar e Felicidade Organizacional, um reconhecimento que valida o compromisso da autarquia com a valorização das suas equipas, a promoção de ambientes de trabalho saudáveis e a construção de uma cultura organizacional positiva.

Nesta edição, a SCORING Magazine conversa com o Sr. Presidente João Nicolau sobre liderança, gestão de pessoas e a importância de implementar políticas de bem-estar no setor público. Uma entrevista que revela a importância de colocar as pessoas no centro das organizações – e como essa aposta pode transformar não apenas equipas, mas também comunidades inteiras.

SCORING Magazine (SM): A Câmara Municipal de Alenquer tornou-se uma entidade certificada no Índice de Bem-Estar e Felicidade Organizacional da SCORING. O que representa este reconhecimento para o município?

Presidente da Câmara de Alenquer (PCA): Este reconhecimento é muito importante para nós, porque reflete, de certa forma, a aposta que o município tem vindo a fazer nesta área e que eu, apesar de estar há relativamente pouco tempo no cargo, procuro manter e reforçar.

Essa aposta começa nas boas práticas relacionadas com o ambiente de trabalho na Câmara Municipal, naquilo que colocamos à disposição dos trabalhadores, na forma como comunicamos com eles – um aspeto que consideramos fundamental – e também no investimento contínuo nas nossas equipas. Por isso, sermos reconhecidos desta forma significa que estamos no caminho certo, no sentido de construirmos cada vez mais um espaço onde as pessoas se sintam felizes a trabalhar.

Como todos sabemos, a função pública atravessa atualmente um período em que os vencimentos não são, infelizmente, os mais competitivos. Nesse sentido, embora o fator salarial seja de enorme importância e exista uma necessidade urgente de revisão das tabelas salariais, o bem-estar dos trabalhadores assume também um papel essencial.

O facto de os colaboradores se sentirem bem naquilo que fazem, motivados e com a perceção de que contribuem positivamente para o dia a dia da organização, representa uma mais-valia muito significativa. É precisamente por isso que este reconhecimento tem tanta importância para nós enquanto organização.

SM: Quando começou a existir uma preocupação estratégica com o bem-estar e a felicidade dos colaboradores da autarquia? E quais foram as mudanças concretas para apostar nessa cultura?

PCA: Seria injusto da minha parte dizer que esta preocupação começou comigo, até porque estou no cargo há cerca de sete meses. Trata-se, claramente, de um trabalho que já vinha a ser desenvolvido e que tem sido construído de forma contínua ao longo do tempo. Equipa após equipa, presidente após presidente, esta preocupação foi sendo reforçada.

Naturalmente, procuramos marcar alguma diferença neste mandato, mas temos plena consciência de que este é um processo contínuo. Não acredito que seja possível mudar tudo de forma repentina ou radical, sem considerar o trabalho que já foi feito e sem reconhecer aquilo que, no passado, correu menos bem ou onde não se conseguiu chegar tão longe quanto se pretendia.

O importante é identificar essas lacunas e procurar corrigi-las. Nesse sentido, temos procurado ouvir os trabalhadores, perceber junto deles o que pode ser melhorado e ir implementando essas melhorias de forma gradual e consistente.

SM: Considera que ainda existe o preconceito de que felicidade e produtividade não combinam no setor público?

PCA:  Penso que sim, que esse preconceito ainda existe. Julgo, inclusivamente, que a própria estrutura da administração pública nem sempre favorece o bem-estar e a felicidade organizacional. Existe uma forte orientação para a componente administrativa e de controlo, e menos foco nos objetivos e na missão final das organizações.

No caso da Câmara Municipal, o nosso objetivo é servir, fazer acontecer e apoiar os munícipes. No entanto, muitas vezes, a máquina administrativa – quer ao nível da administração local, quer da administração central – tende a fechar-se sobre si própria, concentrando-se excessivamente nos procedimentos e não tanto no propósito fundamental da organização.

No nosso caso, enquanto município, o nosso principal objetivo tem de ser prestar um bom serviço aos munícipes e contribuir para o desenvolvimento do concelho. Acredito que, se conseguirmos aproximar mais os trabalhadores desses objetivos e da realidade dos munícipes, enquanto reduzimos alguma da carga burocrática e mais desgastante associada à administração pública, teremos equipas naturalmente mais motivadas.

Nestes sete meses em funções, uma das coisas que mais me marcou foi precisamente o empenho e a dedicação dos trabalhadores desta Câmara. Muitas vezes, o que acaba por dificultar o trabalho não é a falta de vontade ou de compromisso das pessoas, mas sim toda a componente burocrática que vem associada aos processos.

Esse empenho existe, e o desafio agora passa por conseguir projetá-lo para o exterior. Ao fazê-lo, estaremos também a contribuir para mudar a perceção que muitas pessoas ainda têm sobre o trabalho na função pública. E esse reconhecimento externo acaba por ter um impacto muito positivo na motivação, no bem-estar e, em última instância, na felicidade dos trabalhadores, que sentem que o seu esforço é valorizado também pela comunidade.

SM: A felicidade organizacional pode também ajudar a atrair e reter talento na administração pública?

PCA: Penso que pode ajudar muito. No setor privado, muitas vezes, quando as pessoas estão descontentes ou com vontade de sair, é possível fazer um ajuste salarial e, em muitos casos, a situação acaba por ficar resolvida. Na administração pública isso não acontece da mesma forma, porque os vencimentos são tabelados e, por isso, existe pouca margem para ajustes ou negociações salariais. Esse fator acaba por limitar a capacidade de retenção através da componente financeira.

Assim, torna-se ainda mais importante motivar as pessoas da função pública e do serviço público. Nesse contexto, vejo a felicidade organizacional e o bem-estar como elementos fundamentais para garantir maior estabilidade dos recursos humanos dentro das organizações públicas, em particular nas Câmaras Municipais.

SM: O que distingue a Câmara Municipal de Alenquer de outras autarquias ao nível da gestão de pessoas?

PCA: Não tenho um conhecimento aprofundado sobre a realidade interna das outras Câmaras Municipais da região, mas acredito que cada autarquia tenha o seu próprio contexto, a sua envolvente e uma cultura organizacional muito própria, que varia também em função da dimensão de cada município. Existem municípios bastante maiores do que o nosso e outros significativamente mais pequenos. Nós somos um município de média dimensão, e isso acaba por influenciar bastante a proximidade e a relação entre as pessoas dentro da estrutura. Em organizações mais hierarquizadas, com muitos níveis e divisões, é natural que as relações internas se tornem mais distantes.

No nosso caso, aquilo que talvez nos diferencie de alguns municípios vizinhos é precisamente essa proximidade e o lado mais humano da nossa organização. Além disso, existe uma aposta clara da divisão de recursos humanos no desenvolvimento de atividades que promovam a aproximação entre os colaboradores. Muitas vezes, cada pessoa está focada na sua divisão e, no dia a dia, acaba por não existir grande interação com colegas de outras áreas.

Por isso, criar momentos que incentivem essa convivência entre diferentes departamentos contribui para fortalecer o bem-estar, melhorar o relacionamento entre setores e facilitar o trabalho em equipa e a entreajuda no quotidiano da Câmara.

Nesse aspeto, acredito que estamos, pelo menos, acima da média no que diz respeito à criação de relações humanas e à promoção da proximidade entre colaboradores e diferentes áreas da organização. Considero que esse é, de facto, um ponto muito importante: manter a proximidade, cultivar boas relações e garantir que, sempre que alguém precisa de apoio ou surge um problema, existe disponibilidade para ajudar e colaborar.

SM: Considera que o setor público em Portugal precisa de olhar mais para o bem-estar das suas equipas, para prestar um melhor serviço público ao cidadão?

PCA: Penso que ainda existe um longo caminho a percorrer nas estruturas da administração pública, sobretudo ao nível da formação de equipas e do desenvolvimento de competências. Muitas vezes, tanto na administração pública como no setor privado, a formação é encarada como uma obrigação. No entanto, não deve ser vista dessa forma. Se queremos ter equipas de qualidade, temos de apostar em formação de qualidade.

É fundamental fomentar cada vez mais a criação e o desenvolvimento de competências, permitindo às pessoas evoluir e progredir profissionalmente. Nesse aspeto, considero que a administração pública ainda está aquém do nível que deveria atingir, quer no desenvolvimento de competências, quer na capacitação das equipas e na própria organização do trabalho.

Há também um longo caminho a fazer no reforço do foco no cliente, uma prática muito mais presente no setor privado devido à própria exigência do mercado. A maioria das organizações privadas trabalha orientada para o cliente, tendo como principal objetivo a sua satisfação. Contudo, esse princípio nem sempre é encarado da mesma forma na administração pública, sendo por vezes relegado para segundo plano, quando deveria estar no centro da nossa atuação.

No nosso caso, os clientes são os munícipes e o desenvolvimento do concelho. Esse tem de ser o nosso principal objetivo. Naturalmente, o dia a dia do município é marcado por inúmeras tarefas, pela resposta a múltiplos pedidos e por diversas solicitações, quer de entidades do Estado, quer de privados. Ainda assim, nunca podemos perder de vista a nossa missão principal. Nesse aspeto, considero que a administração pública ainda tem um longo percurso a fazer.

SM: Que conselho deixaria a outras autarquias que querem criar ambientes de trabalho mais humanos e positivos?

PCA: Nós não inventámos a roda, nem estamos aqui para dar lições de moral ou de gestão a ninguém. Os meus colegas autarcas conhecem bem a importância que os trabalhadores têm para organizações como as Câmaras Municipais. Sem equipas motivadas e sem o bem-estar dos colaboradores, uma Câmara Municipal dificilmente consegue cumprir a sua missão.

É fundamental apostar no bem-estar dos trabalhadores e, acima de tudo, na capacidade de identificar as suas necessidades. Nem sempre é fácil perceber, de forma concreta, aquilo de que as pessoas precisam e, por isso, torna-se importante encontrar ferramentas que permitam auscultar os trabalhadores de forma próxima e contínua.

É também essencial ajustar permanentemente as necessidades das equipas, quer ao nível do desenvolvimento de carreira, quer da formação, dos recursos materiais ou de outro tipo de apoio que permita garantir um crescimento contínuo. Só assim será possível reter talento dentro das organizações.

Na administração pública, esta é uma preocupação cada vez mais relevante, sobretudo devido à elevada mobilidade entre organismos do Estado e entre a administração pública central e local. Se não conseguirmos criar um ambiente organizacional positivo, a probabilidade de perdermos bons profissionais será inevitavelmente maior.

Por isso, considero essencial construir organizações assentes no bem-estar dos colaboradores, promovendo relações saudáveis e uma verdadeira cultura de felicidade organizacional. Só dessa forma conseguiremos alcançar melhores resultados e cumprir, com sucesso, aquilo a que nos propomos junto dos munícipes.

 

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